HELENISMORumo Norte

Helenismo

Glossário / Etimologia

Λεξικόν

Trinta termos essenciais do Helenismo — conceitos, rituais, lugares e escolas — com definição, etimologia grega e referências cruzadas.

30 de 30 termos

Agalma ἄγαλμα
Ritual
ἄγαλμα, de agallein (‘honrar, adornar’).
Objeto belo consagrado a um deus: estátua, ex-voto, ornamento oferecido para agradar a divindade. Distingue-se do xóanon (imagem antiga em madeira) por ser oferenda votiva.
Pausânias, passim; LSJ
Agón ἀγών
Conceito
ἀγών — ‘reunião, disputa’; da raiz ág- (‘conduzir, reunir’).
Competição sagrada — reunião ritual em que atletas, poetas e músicos disputam em honra dos deuses. Os Jogos Olímpicos eram um agón a Zeus; os Píticos, a Apolo. Vencer era receber a excelência (areté) reconhecida pela pólis inteira.
Píndaro, Olímpicas; Pausânias V–VI
Veja também:Olímpia,Areté
Anábase ἀνάβασις
Filosofia
ἀνά + βαίνειν — ‘subir’.
Subida, ascensão. Em Platão e nos neoplatônicos, ascensão da alma às realidades inteligíveis; em teurgia, o retorno ao Uno percorrendo a hierarquia divina.
Platão, República VII; Proclo, Elementos
Veja também:Neoplatonismo
Apoteose ἀποθέωσις
Conceito
ἀπό + θεός — ‘tornar-se deus’.
Elevação de um mortal ao rank divino. Ocorreu, no mito, a Héracles e aos Dióscuros; no culto histórico, aos fundadores de cidades e depois aos imperadores helenísticos.
Diodoro Sículo IV.38
Veja também:Héracles
Areté ἀρετή
Conceito
ἀρετή, ligada a árnymai (‘conquistar, merecer’).
Excelência: alcançar o melhor de si em corpo, mente e espírito. Ideal do herói homérico, do atleta olímpico e do cidadão. Não é abstrata: é a virtude adequada à função de cada ser.
Homero, passim; Aristóteles, Ética a Nicômaco I.7
Veja também:Agón,Kléos
Basileus βασιλεύς
Conceito
βασιλεύς, provável origem pré-grega.
Rei. Título de Zeus como soberano celeste e do arconte-basileu ateniense, magistrado responsável pelos ritos mais antigos da cidade após o fim da monarquia.
Aristóteles, Constituição de Atenas 3
Chthon χθών
Conceito
χθών, cognato do latim humus.
Terra profunda, subterrânea (distinta de , Gaia — a superfície). O adjetivo ‘ctônico’ designa cultos e deuses do subsolo: Hades, Perséfone, Hécate, os heróis mortos.
Hesíodo, Teogonia
Veja também:O Além
Daímon δαίμων
Conceito
δαίμων, da raiz daíō (‘distribuir’) — ‘aquele que reparte destinos’.
Potência divina intermediária entre deuses e mortais — não ‘demônio’ no sentido cristão. Em Hesíodo, as almas dos justos da idade de ouro tornam-se daímones guardiões da humanidade; em Platão, Eros é chamado ‘grande daímon’.
Hesíodo, Trabalhos 121–126; Platão, Simpósio 202e
Veja também:Conceitos
Ekstasis ἔκστασις
Ritual
ἐκ + ἵστημι — ‘pôr-se fora’.
‘Estar fora de si’: estado ritual induzido nos cultos de Dioniso, na mania profética das Pítias e na experiência mística neoplatônica. Não é desordem, mas passagem controlada para outra ordem de consciência.
Eurípides, Bacantes; Plotino, Enéadas VI.9
Eusebeia εὐσέβεια
Conceito
εὖ + σέβομαι — ‘reverenciar bem’.
Piedade. Atitude correta para com os deuses, os pais, os mortos e a pátria — um dos pilares do helenismo. Distingue-se de deisidaimonia (superstição, medo excessivo do sagrado).
Platão, Eutífron 12e
Veja também:Xenía,Prática
Hecatombe ἑκατόμβη
Ritual
ἑκατόν + βοῦς — ‘cem bois’.
Sacrifício de cem bois — o maior sacrifício público grego, oferecido em grandes festivais pan-helênicos e nas Panateneias. Na prática, a palavra passou a designar qualquer grande sacrifício, mesmo com número menor de vítimas.
Homero, Ilíada I; Hino Homérico a Apolo
Veja também:Prática
Hesychía ἡσυχία
Filosofia
ἡσυχία — ‘repouso, silêncio’.
Quietude interior. Estado de calma da alma cultivado pelos filósofos, condição para a contemplação. Não é passividade: é ordem que precede a ascensão.
Plotino, Enéadas I.6
Hikésios ἱκέσιος
Conceito
ἱκέσιος, de hikneomai (‘chegar suplicando’).
Suplicante: aquele que, com ramo de oliveira, coloca-se sob a proteção de um santuário ou de um chefe de casa. Está sob amparo especial de Zeus Hikésios, e ferir um suplicante é o mais grave dos crimes.
Homero, Ilíada IX.502; Ésquilo, Suplicantes
Veja também:Xenía,Zeus
Katharmós καθαρμός
Ritual
καθαρμός, de kathairō (‘purificar’).
Purificação ritual. Toda pessoa que teve contato com a morte, com o nascimento ou com o sangue derramado devia purificar-se com água, fumaça de enxofre ou aspersão de sangue de suíno antes de aproximar-se do sagrado.
Empédocles, Katharmoí; Ésquilo, Coéforas
Kléos κλέος
Conceito
κλέος, de klúō (‘ouvir’).
Fama duradoura. O que se ouve dizer de um homem depois de sua morte — a memória de seus feitos cantada pelos aedos. Para Aquiles, a escolha entre vida longa obscura ou morte jovem com kléos áphthiton (glória imperecível).
Homero, Odisseia I.283; Ilíada IX.412
Veja também:Aquiles
Kratér κρατήρ
Ritual
κρατήρ, de kerannymi (‘misturar’).
Vaso grande usado para misturar vinho com água — os gregos jamais bebiam vinho puro em contexto civilizado. Central no simpósio e nas libações domésticas; a proporção da mistura (‘crase’) era decidida pelo simposiarca.
Ateneu, Deipnosofistas X
Veja também:Symposion
Manteia μαντεία
Conceito
μαντεία, de mantis (‘adivinho’), ligado a mania.
Adivinhação. Comunicação organizada com o divino: oráculos verbais (Delfos), interpretação do voo das aves (ornitomanteia), dos sonhos (oneiromanteia) e das entranhas das vítimas (hieroskopia).
Cícero, De Divinatione (a partir de fontes gregas)
Veja também:Delfos
Miasma μίασμα
Ritual
μίασμα, de miainō (‘manchar’).
Poluição ritual causada pelo homicídio, pelo contato com cadáver ou pelo nascimento. Não é ‘pecado’ moral: é impureza objetiva que se propaga à cidade se não for purificada, como no Édipo Rei de Sófocles.
Sófocles, Édipo Rei; Antífon, Sobre o coreuta
Veja também:Katharmós
Mysterion μυστήριον
Ritual
μυστήριον, de myō (‘fechar os lábios’).
Mistério — rito de iniciação secreto, cujo conteúdo era proibido revelar sob pena de morte. Os Mistérios de Elêusis, dedicados a Deméter e Perséfone, prometiam ao iniciado uma sorte melhor após a morte.
Hino Homérico a Deméter 480–482
Veja também:Elêusis,Deméter
Nomos νόμος
Conceito
νόμος, de nemein (‘distribuir’).
Lei estabelecida pelos homens ou pelo costume, distinta de themis (ordem cósmica sagrada) e de physis (natureza). Central no debate sofístico sobre o que é convencional e o que é natural.
Heródoto III.38; Sófocles, Antígona
Omphalós ὀμφαλός
Lugar
ὀμφαλός — ‘umbigo’.
‘Umbigo’ do mundo — a pedra sagrada de Delfos que marcava, segundo a tradição, o centro exato da terra. Zeus teria soltado duas águias das extremidades do mundo; encontraram-se em Delfos.
Pausânias X.16.3
Veja também:Delfos
Peán παιάν
Ritual
παιάν, epíteto arcaico ligado a paiō (‘bater, curar’).
Canto ritual coletivo, originalmente dedicado a Apolo Peã como pedido de cura ou vitória; depois estendido a outros deuses salvadores. Executado antes das batalhas e nos festivais.
Homero, Ilíada I.472; Píndaro, Peãs
Polis πόλις
Lugar
πόλις, provavelmente pré-grega, ligada a ‘cidadela’.
Cidade-Estado grega: comunidade autônoma de cidadãos com território, culto e leis próprias. Cada polis tinha seus deuses patronos (Atena em Atenas, Hera em Argos, Ártemis em Éfeso). Era centro religioso, político e militar.
Aristóteles, Política I
Veja também:Grécia Sagrada
Psyche ψυχή
Conceito
ψυχή, de psychein (‘soprar’).
Alma, sopro vital. Em Homero, é o que deixa o corpo pela boca ou pela ferida na hora da morte e desce ao Hades como sombra sem consciência. Em Platão e nos neoplatônicos, é o princípio imortal e racional.
Homero, Ilíada XXIII.100–104; Platão, Fédon
Veja também:O Além
Symposion συμπόσιον
Ritual
σύν + πόσις — ‘beber junto’.
‘Beber junto’: banquete ritual após a refeição, com libações a Zeus Sotér e aos Bons Daímones, canto, música, discurso filosófico e vinho misturado no kratér. Cerimonial de sociabilidade masculina cidadã.
Platão, Simpósio; Xenofonte, Simpósio
Veja também:Kratér
Themis θέμις
Conceito
θέμις, da raiz que significa ‘aquilo que é posto, estabelecido’.
Ordem cósmica sagrada, aquilo que é ‘devido’ segundo a natureza divina — anterior à nomos (lei humana). Personificada como deusa, filha de Urano e Gaia, segunda esposa de Zeus e mãe das Horas e das Moiras.
Hesíodo, Teogonia 901
Theoxenia θεοξενία
Ritual
θεός + ξενία — ‘hospitalidade divina’.
‘Banquete para os deuses’: ritual em que se preparava uma mesa com pão, vinho e frutas e se convidava a divindade a comparecer como hóspede. Praticado especialmente para os Dióscuros e para Apolo.
Píndaro, Olímpicas III; Pausânias X.24.6
Veja também:Xenía,Prática
Theurgía θεουργία
Filosofia
θεός + ἔργον — ‘ação junto ao deus’.
‘Obra divina’: prática ritual dos neoplatônicos tardios (Jâmblico, Proclo) que, através de símbolos, cantos e oferendas, permite à alma unir-se aos deuses. Complementa a filosofia teórica com ação sacramental.
Jâmblico, De Mysteriis; Proclo, Sobre a Arte Hierática
Veja também:Neoplatonismo
Xenía ξενία
Conceito
ξενία, de xénos (‘estrangeiro/hóspede’).
Lei sagrada da hospitalidade. Dever recíproco de acolher o estrangeiro (xénos), oferecer-lhe alimento e abrigo antes mesmo de perguntar seu nome, e presenteá-lo à partida. Zeus Xenios é seu guardião — violar a xenía é ofender diretamente o rei dos deuses.
Homero, Odisseia IX (episódio de Polifemo)
Veja também:Zeus,Eusebeia
Zoé & Bíos ζωή / βίος
Filosofia
ζωή (‘vida como sopro’); βίος (‘vida como curso’).
Duas palavras gregas para ‘vida’: zoé é o sopro vital comum a todos os viventes (biologia); bíos é a forma de vida qualificada, a biografia — o modo humano e cidadão de existir. Distinção retomada pela filosofia contemporânea.
Aristóteles, Ética a Nicômaco I; Plutarco