Helenismo

Nascimento dos Deuses

Θεογονία

O que significa o nascimento de um deus na Teogonia e nos mitos?

Uma pergunta aparece com frequência quando falamos dos deuses gregos: se os deuses são imortais, como podemos dizer que eles nasceram? E, se um deus nasce em determinado momento da Teogonia, isso significa que antes daquele nascimento ele simplesmente não existia? A dificuldade começa porque estamos usando a mesma palavra, “nascimento”, para falar da experiência humana e da geração divina. Quando fazemos isso sem perceber a diferença, acabamos imaginando as genealogias dos deuses como se estivéssemos lendo a história de uma grande família humana. E é justamente aí que muitos mitos começam a parecer contraditórios ou absurdos.

Na experiência humana, nascer significa entrar numa existência corporal sujeita ao tempo. Nós nascemos pequenos, crescemos, aprendemos, envelhecemos e morremos. Nossa existência possui um antes e um depois muito claros. Quando encontramos Gaia gerando Urano, Reia dando à luz Zeus, Leto dando à luz Apolo e Ártemis ou Atena surgindo da cabeça de Zeus, é muito fácil transportar automaticamente essa mesma lógica para os deuses. Mas estamos falando de seres imortais dentro de uma narrativa teogônica. Portanto, antes de perguntar como um deus poderia biologicamente nascer, precisamos compreender o que uma theogonía está fazendo.

A própria palavra θεογονία (theogonía) ajuda: theós é deus e gonḗ está relacionada à geração, origem, nascimento, descendência. A Teogonia de Hesíodo é, portanto, um relato das gerações divinas. Só que Hesíodo não está simplesmente montando uma árvore genealógica para nos informar quem é filho de quem. Conforme as gerações divinas aparecem, o próprio Kosmos vai adquirindo forma, relações e ordem. É por isso que genealogia e cosmogonia estão tão profundamente ligadas no poema. Falar da geração dos deuses é também falar de como as diferentes potências divinas passam a ocupar seus lugares e a relacionar-se dentro da ordem cósmica.

Isso aparece logo no início da Teogonia. Hesíodo apresenta primeiro Kháos e, em seguida, Gaia, Tártaro e Eros. Depois Gaia gera Urano estrelado, as Montanhas e Ponto. Se tratarmos isso apenas como reprodução biológica, perdemos justamente aquilo que a narrativa está colocando diante de nós. Gaia é a Terra e Urano é o Céu; quando Hesíodo apresenta essas potências e estabelece relações entre elas, ele está ao mesmo tempo construindo genealogia e Kosmos. O nascimento, nesse contexto, não é apenas a informação de que “uma pessoa divina teve um filho”. É uma forma poética de apresentar relações entre realidades e potências divinas.

Isso não significa, porém, que devamos cair no extremo oposto e afirmar que os deuses são apenas símbolos da natureza ou conceitos filosóficos disfarçados de personagens. Gaia não precisa deixar de ser uma deusa para que sua relação com a Terra tenha significado cosmológico, assim como Hélio não precisa deixar de ser um deus para estar relacionado ao Sol. A religião grega não exige que escolhamos entre “o deus existe” e “a narrativa sobre ele possui significado”. As duas coisas podem coexistir. O mito fala sobre deuses e, ao mesmo tempo, organiza poeticamente relações entre suas potências, honras, domínios e posições dentro do Kosmos.

É por isso também que os nascimentos divinos não seguem sempre um mesmo modelo. Alguns deuses possuem pai e mãe; outros surgem de apenas uma divindade; algumas gerações acontecem de maneiras extraordinárias. Atena nasce da cabeça de Zeus; Afrodite, na versão hesiódica, surge em consequência da mutilação de Urano e aparece a partir da espuma do mar; Dioniso possui uma narrativa de nascimento completamente diferente; Hermes nasce de Maia e Zeus e, ainda recém-nascido, já manifesta capacidades que reconhecemos imediatamente como próprias de Hermes. Essa variedade é importante porque mostra que não existe uma espécie de “biologia olímpica” que possamos reconstruir e aplicar a todos os deuses. Cada narrativa precisa ser compreendida dentro de sua própria tradição.

O Nascimento de Cada DeusConstruindo

Fonte Primária AntigaHesíodo, Teogonia 116–138; Hino Homérico a Hermes.

Fonte Moderna AcadêmicaBURKERT, Greek Religion (1985); CLAY, Hesiod’s Cosmos (2003); WEST, Hesiod: Theogony (1966).